Mardi 6 janvier 2009

Regras jornalísticas sobre o Oriente Médio

 

Doze regras de redação da grande mídia internacional quando a notícia é sobre o Oriente Médio:

1. No Oriente Médio, são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se "represália".

2. Os árabes, palestinos ou libaneses não têm o direito de matar civis. Isto se chama "terrorismo" .

3. Israel tem o direito de matar civis. Isto se chama "legítima defesa".

4. Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isto se chama "reação da comunidade internacional" .

5. Os palestinos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isto se chama "seqüestro de pessoas indefesas."

6. Israel tem o direito de seqüestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente, são mais de 10 mil presos, 300 dos quais são crianças e 1000 são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter seqüestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades democraticamente eleitas pelos palestinos. Isto se chama "prisão de terroristas" .

7. Quando se menciona a palavra "Hezbollah", é obrigatório que a mesma frase contenha a expressão "apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã".

8. Quando se menciona "Israel", é proibida qualquer menção à expressão "apoiado e financiado pelos EUA". Isto pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.

9. Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões "territórios ocupados", "resoluções da ONU", "violações dos direitos humanos" ou "Convenção de Genebra".

10. Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre "covardes", que se escondem entre a população civil a qual "não os quer". Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isto se dá o nome de "covardia". Israel tem o direito de aniquilar com bombas e misseis os bairros onde eles estão dormindo. Isto se chama "ação cirúrgica de alta precisão".

11. Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso, eles e seus apoiadores devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes 'regras de redação' (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama "neutralidade jornalística" .

12. Todas as pessoas que não estão de acordo com as 'regras de redação' acima expostas são "terroristas anti-semitas de alta periculosidade" .


(Texto de autor francês desconhecido, enviado por leitor ao blog da Agência Carta Maior)

Par Fórum da Ocupação
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Dimanche 4 janvier 2009

Comentário de José Saramago sobre Obama e Gaza:


 

Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.

Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: “Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime”.

Par Fórum da Ocupação
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Samedi 3 janvier 2009

Israel e suas bombas nunca quiseram a paz

Haim Bresheeth
(Professor-titular de Estudos sobre Mídia, na University of East London.
Co-autor de The Gulf War and the New World Order)


The Electronic Intifada, 31/12/2008
http://electronicintifada.net/v2/article10080.shtml


Como uma espécie de 'encarnação' da tese do "choque de civilizações" de Huntington, Israel é, como sempre foi, mais exposta ou mais veladamente, um bastião do mundo judeu-cristão, contra os árabes e o Islam.

Enquanto aumenta hora a hora o número de mortos em Gaza, e caem os últimos prédios que ainda restavam da estrutura administrativa do governo eleito do Hamás, sob o fogo dos aviões e helicópteros israelenses, outra vez estamos assistindo a um inacreditável fenômeno – um massacre anunciado que, contudo, parece ter colhido de surpresa todos os líderes políticos mundiais, como se eles, ao contrário do resto da humanidade, jamais lessem jornais ou assistissem aos noticiários de televisão.

No verão de 2006, depois de meses de ameaças, por Israel, de que invadiria o Líbano e "arrasaria" o Hizbóllah, os líderes mundiais também pareceram ocupados demais para dar atenção às notícias (antes) e "muito chocados" (depois). Para sermos precisos, mostraram-se "muito chocados" durante um mês inteiro, um mês de carnificina e destruição, exatamente o tempo de que Israel supunha que precisasse. Até que Israel passou a precisar desesperadamente de um cessar-fogo, depois que as coisas, no Líbano, passaram a 'fugir do script' previsto por Israel.

Então, repentinamente, as nações ocidentais, do dia para a noite, impuseram o cessar-fogo. Pois, ainda assim, fracassaram no projeto de ajudar Israel a "arrasar" o Hizbóllah. Fato é que, quando só quem viva com a própria moral sob bloqueio absoluto ainda encontra justificativa para o projeto assassino, bárbaro, ilógico, de Israel, a questão verdadeira é: até onde as nações ocidentais permitirão que avance o projeto perverso de Israel? Até que ponto o ocidente aceitará que os criminosos escapem impunes?

Depois de 40 anos de ocupação brutal, depois de já terem sido violadas incontáveis resoluções da ONU e das Convenções de Genebra, com centenas e milhares de mortos em todos os países que cercam a Palestina, para não falar nos mortos de hoje na Palestina, depois de terem sido ignorados numerosos acordos, iniciativas, cúpulas, Mapas do Caminho e Prêmios Nobel, estamos no ponto em que estávamos há 40 anos, mas em cenário muito mais trágico.

Não poderia estar acontecendo, mas está; e continuará a acontecer, arrastando cada vez mais todo o mundo político ocidental para o sorvedouro que é o conflito Israel-Palestina, hoje já convertido, ao que parece, em conflito Ocidente vs Palestina. Nada disso poderia estar acontecendo. E não aconteceria, se os líderes políticos mundiais não se tivessem mantido de olhos fechados – aplicadamente fechados, decididamente, devotadamente, metodicamente fechados – para os fatos, durante décadas.

Então... o que fazem os líderes políticos hoje, quando Israel outra vez, outra vez, outra vez, ataca 1,5 milhão de palestinenses, depois de ter tentado matá-los de fome durante quase dois meses? Depois de lhes ter roubado qualquer possibilidade de encontrar trabalho, comida, remédios, combustível, eletricidade ou água? O que os líderes do "mundo democrático", Bush, Brown, Berlusconi ou Sarkozy – todos apoiadores fiéis (ou reféns?) de Israel – fazem hoje? O que aprenderam com as centenas de incursões de Israel contra Gaza? O que aprenderam com a destruição cíclica, continuada, do Líbano, que recomeça cada vez que algum primeiro-ministro israelense sente que precisa reforçar sua posição eleitoral?

Bem se poderia perguntar, ao pensar sobre esses líderes do Mundo Livre, o que aprenderam das lutas no Vietnam, na Nicarágua, no Iran, Iraque ou Afeganistão ou Paquistão, conflitos dos quais participaram, sempre tão zelosos na defesa de alguma democracia.

A verdade é que o ocidente jamais aprendeu o que haveria a aprender em todo o seu longo passado colonial e imperial, ou no presente, das agressões e crimes de guerra que o mesmo ocidente continua a cometer até hoje. Só mudou, até hoje, a quantidade e a extensão da violência militar – como se, para resolver conflitos, bastassem as armas e a violência, mais violência, violência cada vez maior, não é?

Os soviéticos também creram que, com muita violência e quantidade inacreditável de armas, derrotariam ao Afeganistão; e tantos políticos ocidentais ainda crêem nisso, embora já comece a haver quem consiga ver que não, que as coisas não têm dado muito certo, de fato.

Israel usa essa política imbecilizada há 60 anos – se você atacar todos à sua volta, e se for o mais fortemente armado exército do Oriente Médio, você estará livre para fazer o que quiser; assim haverá paz e progresso (mesmo que jamais tenha havido).

É verdade. O exército de Israel é suficientemente poderoso para destruir todo o Oriente Médio (e, de fato, também para destruir parte importante do ocidente). O único problema é que, até hoje, jamais conseguiu mandar, sequer, no território em que lhe caberia mandar. O mais poderoso exército do mundo está detido, ainda, pela resistência palestinense. Como entender essa contradição?

Bem, para começar, Israel jamais trabalhou para construir qualquer paz com os palestinenses; jamais usou outro meio que não fossem os meios do extermínio, da limpeza étnica, do holocausto, para matar as populações nativas e residentes históricas na Palestina, desde a fundação do Estado de Israel, em maio de 1948.

Israel expulsou 750 mil palestinos, converteu-os em refugiados e, em seguida, passou a impedir sistematicamente o retorno deles e de seus filhos (hoje, também, já, dos netos deles), apesar das Resoluções da ONU, ao mesmo tempo em que continuou a destruir cidades e vilas, ou – o que é o mesmo – passou a construir colônias de ocupação sobre as ruínas das cidades e vilas palestinenses.

Desde 1967, Israel fez tudo que algum Estado poderia fazer para tornar impossível qualquer solução política: colonizou por vias ilegais territórios ocupados por via ilegal e recusou-se a acatar os limites de antes das invasões de 1967; construiu um muro de apartheid; e tornou a vida impossível para a maioria dos palestinenses. Nada, aí, faz pensar em esforço de paz. Antes, é operação continuada e sistemática para a limpeza étnica dos territórios palestinenses ocupados ilegalmente.

Assim sendo, se a paz implicar – como implica necessariamente – o fim do mini-império construído por Israel, Israel continuará a fazer o que estiver ao seu alcance para que não haja paz, mesmo que a paz lhe seja oferecida numa bandeja, como a Iniciativa de Paz dos sauditas, recentemente, por exemplo. Outra vez, não se entende: se os israelenses só tinham a esperar esse tipo de oferta, se desejassem alguma paz, porque a rejeitaram, praticamente sem nem a considerar?

Faz tanto tempo que Israel rejeita toda e qualquer possibilidade de paz, que a maioria dos israelenses já nem são capazes de ver que rejeitar a paz converteu-se, para Israel, numa espécie de segunda natureza.

Mas o motivo mais aterrorizante pelo qual nenhuma iniciativa de paz jamais teve qualquer chance de prosperar tem a ver, de fato, conosco, com o ocidente.

Israel continua a ser apoiada pelas democracias ocidentais como uma espécie de força delegada, como batalhão ocidental avançado, implantado na entrada do mundo árabe, mais indispensável, tanto quanto mais dependente do ocidente, que regimes-clientes, como os sauditas e como o Iraque de Saddam até 1990.

Como uma espécie de 'encarnação' da tese do "choque de civilizações" de Huntington, Israel é, como sempre foi, mais exposta ou mais veladamente, um bastião do mundo judeu-cristão, contra os árabes e o Islam.

Isso já era verdade há décadas, mas jamais foi mais verdade do que na última década, quando a Ordem do Novo Mundo entrou em crise terminal, e começou-se a ouvir falar da "Doutrina do Choque", de "Choque e Horror", de várias 'operações' tempestade contra os desertos da Ásia e sempre contra os islâmicos.

Israel, não o Iran, possui armas nucleares e é capaz de usá-las – e várias vezes já ameaçou usá-las. Mas fala-se como se o perigo viesse do Iran, não se Israel. Os que propõem a destruição do Iran são os mesmos mercadores de tragédias que impingiram aos EUA e à Inglaterra o custo altíssimo da guerra do Iraque.

Pensemos, por um momento: o que sentiria um muçulmano inglês, se parasse para pensar sobre um mundo no qual os eternos culpados, os "terroristas", os extremistas, os insurgentes sempre são os muçulmanos, eternamente caçados pelas grandes forças da chamada "lei e ordem" internacional, do chamado Mundo Livre? Não surpreende que alguns poucos ingleses, nascidos britânicos e criados como muçulmanos, considerem aceitáveis as bombas que explodiram em Londres. Mas alienar cada vez mais os muçulmanos e matar um número cada vez maior de muçulmanos será alguma espécie de solução para essa situação explosiva?

1000 anos depois do início das Cruzadas, é-se ainda tentado a perguntar se não é hora de fechar o livro, dar por fracassados a tentativa e o modelo, enterrar os escudos e reiniciar novo processo de contato e de conversação?

Verdade é que não haverá contato nem será possível qualquer conversação, enquanto o Mundo Livre continuar refém do modelo israelense de solucionar conflitos – bombardeie os diferentes, até reduzi-los a pó; isso feito, ninguém terá de conversar com ninguém; e, caso seja indispensável conversar, 'eles' baixarão a cabeça depois de as bombas os terem varrido do mundo.

Até quando continuaremos a aceitar a chacina e a matança como plataforma para o diálogo? Alguém conhece algum caso em que a solução à moda Israel & bombas tenha jamais levado à paz?

Par Fórum da Ocupação
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Samedi 3 janvier 2009
No dia 17 de dezembro de 1968, quatro dias após o AI5, o exército invadia o Crusp, prendendo aproxidamente 800 estudantes. Esse é um dos fatos cruciais na história da USP; no entanto, no mês de dezembro de 2008, o Jornal da USP não dedicou uma linha sequer a esse episódio. Poder-se-ia creditar a um lamentável esquecimento. Mas não é. Muito do valor simbólico que a Universidade de São Paulo carrega deve-se ao seu passado, à resitência frente à Ditatura Civil/Militar instalatada após 1964; no entanto, atualmente, para reitores, diretores, gestores de uma forma geral, importa lucrar com esse valor simbólico, mas jamais atualizá-lo como algo existente, capaz de inspirar novas gerações. Não nos esqueçamos que hoje vivemos a deliberada tentantiva de docilizar o Movimento Estudatil, e como este ainda resiste a comportar-se bovinamente, estão criminalizando-o pelo simples fato de exigir respeito aos princípios que devem nortear uma universidade pública.
40 anos depois não é mais preciso invadir a USP, ela está tomada pelos interesses particulares de um poucos, que se fazem representar pelos gestores universitários.
A coerção agora é mais sutil e mais barata.
Par Fórum da Ocupação - Publié dans : Movimento Estudantil
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Vendredi 2 janvier 2009

Onde está a direção revolucionária?

José Arbex Jr. (Originalmente publicado na Caros Amigos / Dez.2008)

Nenhum setor escapa. Óbvio que o impacto é diferenciado. Alguns reagem e até conseguem transformar a crie em lucro. Os bancos brasileiros se dizem “saudáveis” (pudera: a agiotagem, a pilhagem e o roubo permitidos e assegurados por sucessivos governos federais, de Collor a Lula, dão-lhes lugar único no planeta. Vale a sentença de Lênin: assaltar um banco é nada comparado com fundar um).

Mas, no geral, há consenso mesmo entre economistas liberais: a catástrofe é mais grave que a de 1929. O que todos sabem, mas poucos afirmam, é que a crise do capital foi produzida pela infinita voracidade do próprio capital, confirmando, uma vez mais, o diagnóstico de Marx sobre os limites do capitalismo.

Não há novidade no fato de que a necessidade da busca permanente do aumento de lucros leva o capital a aventuras cada vez mais destrutivas, com as guerras. A “novidade” consiste nas proporções da destruição possível: graças aos avanços tecnológicos, atingiram dimensões titânicas, pois dotam o capital do poder de: transformar radicalmente a paisagem natural (basta pensar no buraco da camada de ozônio); desafiar os limites impostos por bilhões de anos do processo evolutivo (transgênicos, que eliminam a fronteira entre os reinos naturais); e aniquilar a vida sobre o planeta (a capacidade mortífera demonstrada em Hiroxima e Nagasáqui não passa de brinquedo comparada ao poderio contemporâneo). Debate-se o conceito de “antropoceno”, a idéia de que a ação humana pode, finalmente, alterar o ecossistema planetário, à semelhança dos cataclismos que marcaram a divisão entre as eras.

Sob o domínio do capital, ciência e técnica deixaram de ser forças produtivas. São destrutivas. Seu desenvolvimento não se volta para o bem-estar da principal força produtiva, o trabalhador, a maioria, mas para sua destruição. Como mostra um dado dramático, divulgado pela 5ª Conferência Internacional da Via Campesina, que reuniu 600 militantes de 60 países, entre 16 e 23 de outubro: A produção mundial de grãos 2007/2008 está estimada em 2,1 bilhões de toneladas, um aumento de 4,7% em relação à safra anterior. Estatísticas da ONU mostram que, no início dos anos 1950, 2,5 bilhões de seres humanos dispunham, em média, de 2.450 calorias diárias; em 2000, 6 bilhões tinham à disposição, em média, 2.700 calorias. A extensão de terras aráveis e culturas permanentes passou de 1,33 bilhão para 1,5 bilhão de hectares, ao passo que a área de superfície irrigadas mais que triplicou (de 80 milhões para 270 milhões de hectares). Apesar disso, o número de pessoas com fome cresceu até alcançar a cifra de 1 bilhão.

Como explicar? Infelizmente, é simples: comida virou commodity, artigo de especulação negociado nas bolsas, ainda mais quando parte dos grãos vai produzir combustíveis. Observa-se a mesma lógica predatória em todos os setores. O capitalismo já demonstrou que pode apenas prometer mais destruição. E, contudo, sua atual crise foi produzida por mecanismos inerentes ao seu funcionamento, sem participação do movimento de massas ou, muito menos, de setores influentes da esquerda. A esquerda foi reduzida a observadora, enquanto os senhores das finanças decidem.

Nisso há uma diferença crucial em relação a 1929: a Revolução Russa estava no auge, e os Estados Unidos eram palco de greves e manifestações de massa. Ao ser acusado de “comunista” pelos republicanos, para quem o New Deal era sinônimo de coletivização, Franklin Roosevelt disse que ele era o verdadeiro capitalista, pois se deixasse o mercado resolver por si só a Depressão, arriscava abrir uma avenida para a revolução socialista no país. Hoje, uma parte da antiga esquerda foi corrompida, absorvida pelo Estado, e constitui força auxiliar do capitalismo, na missão de “acalmar” os trabalhadores, tirar do horizonte toda perspectiva de revolução e convencer a todos de que bolsas compensatórias é o máximo a que a juventude e os trabalhadores podem aspirar.

Bolsas compensatórias, quando o planeta caminha para o precipício. A crença de que a estabilidade do capitalismo tende ao infinito, de que nada conseguirá transformar o mundo, após três décadas de neoliberalismo, age como estupefaciente, até mesmo sobre lideranças combativas, que hoje fazem do socialismo mais profissão de fé, um mantra esvaziado de sentido, do que um norte político. A contrapartida da prostração é a constatação de que vivemos, nas duas últimas décadas, um refluxo do movimento de massas. A obviedade, anunciada sempre em tom solene, junto com a explicação de que a “correlação de forças” é desfavorável, acaba servindo como justificativa, estribilho de uma canção de ninar para crianças inquietas, e assim evitar qualquer passo ousado, ruptura com a ordem estabelecida (mesmo quando ela agoniza). A esquerda submete-se a uma subjetividade derrotada, antes mesmo de iniciar o bom combate.

A crise demonstra mais uma vez, e com dramaticidade ímpar, que as condições objetivas estão dadas para sua superação, se concordarmos com a análise de Marx sobre a natureza do jogo estabelecido entre o modo de produção e forças produtivas. O modo de produção do capitalismo não é mais capaz de oferecer solução aos desafios da humanidade, e a crise atual só demonstra isso. Trabalhadores, juventude, mulheres, vítimas do racismo, famílias envidadas – todos sentem isso. Falta “apenas” a direção revolucionária para dar um sentido ao combate, oferecer alternativa às bolsas compensatórias e à perspectiva social-democrata. Sem sua direção, os trabalhadores até derrubam De La Rua, mas empossam Kirchner; derrotam Bush, mas acreditam em Obama; odeiam os tucanos, mas enxergam só o Lula.

Onde está nossa direção revolucionária?

Par Fórum da Ocupação
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Jeudi 25 décembre 2008

Par Fórum da Ocupação
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Jeudi 25 décembre 2008
Demissão de diretor do Sintusp é inaceitável
No começo de novembro, a Reitoria da Universidade de São Paulo demitiu Claudionor Brandão por justa causa. Brandão é dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), e foi demitido no cumprimento de deliberações das assembléias de sua categoria. Tudo indica que seu afastamento tem caráter político, sendo um primeiro passo (quase que um ensaio para testar as entidas docentes, discentes e de trabalhadores) para desmontar os movimentos organizados da USP que lutam em defesa da universidade pública.
 
Não é de hoje que dirigentes universitários estão privatizando gradualmente as universidades públicas, só não foram mais longe na sanha privatista, tendo em vista a resistência de funcionários, estudantes e parcela dos professores. A USP, que é a mais autoritária e antidemocrática de todas as universidades públicas brasileiras, cujo Estatuto remonta em muito desde os tempos da Ditadura, vem dissolvendo o seu caráter público e social há anos. É nesse diapasão, que desde a Ocupação, em 2007, que a Reitoria, na figura da professora Suely Vilela – um dos piores reitores da história da USP, cuja mediocridade assusta quando pensamos tratar-se de dirigente máximo da principal universidade brasileira –, e apoiada na alta cúpula dirigente, vem agredindo sistematicamente o livre direito de organização e manifestação da comunidade universitária, com particular ênfase para os setores mais resistentes e combativos. Tal postura reflete o desejo, bastante coerente com a mentalidade dos gestores da Universidade de São Paulo, de eliminar qualquer oposição ao projeto de privatização da Universidade. Até porque esse projeto atende a interesses de boa parte de professores que integram o CO (Conselho Universitário – órgão máximo da Universidade), que na sua maioria tem ligações com fundações ou empresas do setor privado, isso sem falar nos famigerados grupos de pesquisa, encastelados na Universidade como verdadeiras microempresas atendendo a interesses particulares;
 
Foi no combate à destruição do caráter público da USP, que Claudinor Brandão foi demitido – não por acaso afastado no mês de dezembro, período em que a Universidade fica esvaziada por conta das férias escolares, sendo, portanto, tênue qualquer tentativa de resistência pela comunidade universitária. Mais uma vez, essa esperteza e falta de ética são coerentes com a mentalidade dos gestores da USP, que nem mais ficam rubros, uma vez que virou hábito. Nesse sentido, é inaceitável a demissão do diretor do Sintusp, Claudionor Brandão, seja porque ela se inscreve no marco da criminalização dos movimentos sociais que campeia por todo o Brasil, seja porque foi demitido no exercício de mandato sindical e no cumprimento de deliberações das assembléias da categoria. Pelo que vem acontecendo no Brasil, e pelo que a história nos diz, caso essa demissão torne-se efetiva, o que virá em seguida é o desmanche de todas as entidades representativas de funcionários, professores e estudantes que não sejam dóceis com pessoas como Suely Vilela, João Grandino Rodas, Silvio Savaya etc, ou que não sejam dóceis com o projeto que coloca a universidade contra a vida e a serviço do capital. Assim, este blog, que não tem ligações com o Sintusp ou Claudionor Brandão, reitera que é inaceitável a agressão levada a termo pela Reitoria da USP.
 
Abaixo segue o link para o blog que pede a readmissão de Brandão, bem como o abaixo-assinado criado por seus colegas reivindicando sua recondução ao cargo:
 
 

Abaixo-assinado contra a demissão de Claudionor Brandão

No dia 09/12/08, a reitoria da Universidade de São Paulo alegou demissão por justa causa a Claudionor Brandão, diretor do SINTUSP e representante eleito dos funcionários no Conselho Universitário. Essa medida faz parte de um processo de perseguição e punição a setores do movimento operário, estudantil e de movimentos sociais. Brandão fez parte, em diversos momentos, das lutas em defesa da universidade pública e da educação de qualidade e é por esse motivo que agora a reitoria da USP tenta colocá-lo na cada vez mais longa lista de demitidos políticos pelo país a fora.

Como delegado sindical e diretor do SINTUSP eleito em fóruns da categoria, Brandão sempre esteve à frente da defesa dos interesses do conjunto dos trabalhadores da universidade, se pautando em deliberações legitimamente tomadas pelos trabalhadores em suas assembléias e instâncias de decisão. Por tudo isso, as entidades, associações e movimentos abaixo-assinados REPUDIAMOS A DEMISSÃO do diretor do SINTUSP Claudionor Brandão. Trata-se de um ataque duríssimo à liberdade de organização sindical e política dos trabalhadores, estudantes e ao próprio SINTUSP. Exigimos a REINCORPORAÇÃO IMEDIATA E INCONDICIONAL de Claudionor Brandão aos quadros da universidade e a retirada de todos os processos administrativos e sindicâncias aos estudantes, trabalhadores e professores que lutaram em defesa da universidade.

Favor enviar adesões para: sintusp1@terra.com.br
com cópia para
contraademissaodobrandao@yahoo.com.br
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Mardi 23 décembre 2008
Professores são ameaçados de morte no Campus de Registro-SP, da UNESP

Fonte: http://www.andes.org.br/imprensa/ultimas/contatoview.asp?key=5471
 

A Adunesp – Seção Sindical dos Docentes da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquisa Filho" e o SINTUNESP – Sindicato dos Trabalhadores da UNESP estão denunciado ameaças de morte sofridas por quatro professores do Campus Experimental de Registro (a 187 quilômetros da capital). Um dos docentes ameaçados, Afrânio José Soriano Soares, é um dos dirigentes da Adunesp.

 

De acordo com a Seção Sindical, a primeira ameaça ocorreu há dois meses, e a segunda, há poucos dias. Por telefone e e-mail, os agressores alertam os professores: “se continuarem com essas denuncias vão MORRER, TODOS VOCES, SAFADOS” (sic). A mensagem eletrônica avisa: “voces não precisam saber sobre a PRESTACAO DE CONTAS DO CAMPUS REGISTRO” (sic).

 

Em entrevista por telefone, o professor Antônio Luís de Andrade, um dos dirigentes da Adunesp, reafirmou a denúncia de que apesar de ter sido comunicada das ameaças, a reitoria da UNESP mantém silêncio sobre o assunto. A reportagem telefonou para a reitoria. De acordo com uma das funcionárias com as quais falou, o órgão teria recebido essa denúncia esta semana.

 

A Assessoria de Comunicação da instituição enviou nota à Imprensa do Sindicato Nacional afirmando: “Em relação ao assunto do câmpus de Registro da Unesp, informamos que a Reitoria está procedendo à apuração do caso e também ao acompanhamento das providências na esfera policial e deverá ter informações preliminares nos próximos dias”.

 

As entidades sindicais não estão atribuindo as ameaças a ninguém. “Não sabemos quem está tentando calar os professores. O que nós queremos é que a reitoria se pronuncie, que tome alguma providência para averiguar a denúncia”, explica. Em sua denúncia, a Adunesp e o SINTUNESP afirmam que os professores Mauro Donizeti Tonasse, Palimécio Gimenes Guerrero Júnior, Afrânio José Soriano Soares e João Vicente Coffani Nunes “vem sofrendo há anos uma vergonhosa perseguição política da coordenadoria executiva do campus de Registro”.

 

A nota por meio da qual a Adunesp e o SINTUNESP denunciam as ameaças enumera os motivos da perseguição, segundo os quais os professores estariam recebendo represarias por exigir o cumprimento da Portaria UNESP 461/05; questionar e contrapor-se às atitudes autoritárias e aos desmandos da coordenadoria executiva do campus; reivindicar concursos públicos para docentes e funcionários, pautados na impessoalidade pública; pleitear a constituição de órgão colegiado local, respeitada a legislação em vigor; e por cobrar prestação de contas, elaboração e aprovação de atas das deliberações do Conselho de Curso dessa unidade, entre outros.

 

Para Andrade, há uma perseguição generalizada a sindicalistas nas universidades estaduais paulistas. “Junto com a demissão de Brandão pela reitoria da USP, essas ameaças de morte são casos emblemáticos da tentativa de enfraquecimento do movimento sindical pelos gestores das instituições”, acredita.

 

A demissão de Claudionor Brandão pela reitora Suely Vilela, da USP, causou a reação de toda a comunidade acadêmica, que realizou um ato de protesto contra a demissão no último dia 16. Para a revista Caros Amigos, o ato da reitora "fere a democracia". Na matéria, a revista destaca os 20 anos de atuação política do sindicalista.

 

Apoio

O ANDES-SN divulgou moção de apoio aos docentes, cobrando garantia de vida para os docentes ameaçados. Leia na íntegra:

 

MOÇÃO

 

A criminalização dos movimentos sociais, expressão de uma política deliberada, visa impedir e aterrorizar aqueles que defendem o direito de manifestar suas idéias, expressar seu pensamento e defender os interesses dos marginalizados e do interesse público.

 

O banditismo e perseguição política, inclusive com pichação e ameaça de morte, que vem ocorrendo no campus experimental da UNESP, da cidade de Registro, é inadmissível. Docentes que defendem o interesse público são perseguidos e ameaçados de morte.

 

Cobramos garantia de vida aos docentes Mauro D. Tonasse, Palimessio G. Guerro Junior, Afrânio J. S. Soares, João Vicente C. Nunes.

 

O ANDES-SN, pautado no princípio da democracia e na defesa da universidade pública vem exigir garantia de vida e tranqüilidade aos docentes da UNESP, o fim das perseguições, o cumprimento às legislações respectivas e aos estatutos da universidade, e a imediata apuração dos fatos e punição dos responsáveis pelas ameaças de morte.

 

Brasília, 19 de dezembro de 2008

Diretoria do ANDES-SN

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Lundi 22 décembre 2008

Justiça absolve, mas PUC-SP condena estudantes
http://cabenevidespaixao.wordpress.com/2008/12/20/justica-absolve-mas-puc-sp-condena-estudantes/

 

Estudantes processados pela universidade por participarem da ocupação da reitoria foram absolvidos do processo criminal mas condenados à suspensão no administrativo.

Depois de uma ocupação da reitoria da PUC-SP, nove estudantes sofreram um porcesso administrativo (interno) e quatro deles um processo criminal. Além da convocação da Tropa de Choque da Polícia Militar para a retirada dos manifestantes, a gestão Maura Véras decidiu investigar e punir alguns estudantes, dentre os mais de 300 que participaram da ocupação. A principal acusação era a depredação do patrimônio. No entanto, a justiça determinou pela absolvição dos acusados. Já a universidade, considerou-os culpados e determinou a suspensão de três dias, a inclusão do resultado do processo no histórico escolar e a proibição dos alunos formados de se matricularem em outro curso na PUC-SP.

A decisão da juíza considerou o fato do processo administrativo incluir nove estudantes e o criminal apenas quatro. Isso significaria que a universidade já havia perdoado 5 deles, não podendo condenar os demais. Esse elemento compravaria, segundo a argumentação do avogado de três estudantes, Yvan Gomes Miguel (do Nucleo dos Advogados do Povo), uma explícita perseguição política.

O processo administrativo foi marcado por diversas manipulações e fraudes. Os prazos de defesa foram desrespeitdos, a identificação do estudantes induzida, e até provas falsas foram utilizadas. O parecer da comissão sindicante propunha a expulsão de sete estudantes, e a reitora Maura Véras, na última semana de mandato fez questão de aferir a condenação. A pena de suspensão é justificada pela lição pedagógica a qual os estudantes foram submetidos durante os processos que sofreram.

A ocupação aconteceu entre os dias 5 e 10 de outubro de 2007, e tinha como reivindicação:

- Anulação do processo de Redesenho Institucional. Por um processo realmente democrático, construído pela comunidade.

 

- Pela revogação da atual política de bolsas que impede os primeiro-anistas de terem acesso à universidade. Queremos bolsas que atendam as reais necessidades dos estudantes e que a abertura deste novo edital se dê mediante a participação dos estudantes.

- Nenhuma demissão de professores e funcionários. Chega de demissões!

- Nenhuma punição aos estudantes ocupados. Choque então, nem pensar.

- Solidariedade às demais ocupações em todo o Brasil. A nossa luta é uma só!”

 

Esta absolvição é uma vitória da comunidade puquiana, que, indiganda, se organizou contra as punições. Com certeza, os estudantes, professores e funcionários respiram mais aliviados, e, com essa conquista, continuarão lutando por uma univerisdade democrática, comprometida com os trabalhadores, laica, pública, gratuita. Os resultados também carregam o simbolismo de uma gestão elitista, reacionária, delinquente, que acaba de se encerrar. É uma boa hora da comunidade interna e de todos os movimentos sociais enterrarem este período nefasto da universidade e voltarem a se apropriar da PUC-SP. Diante dessa conjuntura duríssima, de intensa criminalização da pobreza e dos movimentos, é preciso transformar esse tipo de vitória defensiva da esquerda, em derrotas definitivas da burguesia.
Par Fórum da Ocupação - Publié dans : Movimento Estudantil
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Dimanche 21 décembre 2008

Bolhas Brasileiras

 Leda Maria Paulani*

 A reação inicial do governo brasileiro à explosão da crise financeira que se iniciou em meados de setembro nos EUA (mas ela já estava em germe há muito tempo) foi dar de ombros: “a crise é lá deles, eles que a resolvam”. Contradições à parte, visto que se buscou desde FHC afirmar que nossa economia era agora aberta, “moderna”, perfeitamente integrada à economia global, a continuidade dos acontecimentos foi tornando insustentável a resposta desdenhosa.   Nossa bolsa caía aqui mais do que em qualquer outra parte do mundo, o crédito externo desaparecia como por encanto, os dólares começavam a bater em retirada e sua cotação em reais subia como um foguete. Com todo esse tumulto, as autoridades foram instadas a tomar uma providência e quem se mexe para intervir no ambiente econômico por conta da intromissão de eventos não previstos não pode mais afirmar que eles não existem.

O governo começa assim a admitir que uma parte da crise sobraria para a sortuda economia brasileira, brindada então com as descobertas do pré-sal. Essa nova posição, porém, restringia-se à admissão de que a crise mundial poderia afetar as exportações brasileiras, combustível para o crescimento, e que o sumiço do crédito externo, até então abundante, e o aperto do interno, em função da crise de confiança, dificultaria a vida das empresas e prejudicaria o consumo. Em suma, complicações que viriam pelo assim chamado “lado real” da economia. Implícita nessa postura a idéia de que a desordem financeira não tinha aqui lugar, que o sistema financeiro brasileiro era sólido e que aqui não havia bolhas de ativos que pudessem estourar inopinadamente. Contradições à parte mais uma vez, já que a queda desbragada do índice Bovespa, rompendo todas as marcas psicológicas imagináveis, não era outra coisa senão a expressão da existência de uma poderosa bolha no mercado acionário, a realidade novamente derruba as interpretações oficiais: tradicionais e respeitadas empresas nacionais do porte de Aracruz, Sadia e Votorantim enfiavam os pés pelas mãos, pegas no contrapé pela inversão abrupta e profunda do movimento da taxa de câmbio, vendo cair por terra polpudas apostas na continuidade da valorização da moeda doméstica (o que implicava para elas, por estranho que pareça em sendo elas empresas exportadoras, torcer pela continuidade da apreciação do real e, por tabela, pela continuidade da política monetária).  Sinal, portanto, de uma bolha também no mercado de derivativos, “produto” típico do assim chamado “mercado financeiro”.  A complicação aqui parece ser ainda maior porque, segundo os próprios executivos do mercado, a maior parte dessas apostas foi feita no mercado de balcão, sobre o qual não se exerce nenhum tipo de controle, de modo que ninguém sabe exatamente qual é o tamanho desse buraco (as três empresas em conjunto somam R$ 5 bi de perdas, mas estima-se que há mais de 200 empresas com o mesmo problema).

Por trás desses movimentos, particularmente no que concerne aos derivativos, a existência da bolha maior, representada pelo valor inflado do real. Consideradas as moedas periféricas mais relevantes, o real foi campeão de desvalorização. O dólar americano vale hoje 50% mais do que há três meses — o real perdeu cerca de 1/3 de seu valor — e não fossem as insistentes  e substantivas intervenções do Banco Central e as declarações de que estaria disposto a ofertar até US$ 50 bilhões em swaps cambiais e/ou gastar até 10% das reservas para defender nossa moeda, essa perda teria sido evidentemente muito maior. Só para ilustrar, os pesos chileno e mexicano não perderam mais do que 10% de seu valor.

Como explicar esse valor inflado do real? Os defensores do livre mercado apressam-se a dizer que câmbio flutuante é câmbio flutuante e que a moeda forte custa aquilo que o mercado, sempre o melhor juiz, julga que ela deve custar em cada momento. E supondo que os agentes, principalmente esses do mercado, são racionais e não se deixam levar cegamente pelas variações nas quantidades dos bens, principalmente sendo o bem em questão a divisa, em quais variáveis deveria o mercado se basear para fazer tal julgamento? Qualquer aluno de segundo ano de Economia diria sem titubear que o mercado deveria estar sempre de olho na performance do balanço de pagamentos do país. Ora, se tomarmos os dados desta peça contábil, veremos que, nos dois primeiros trimestres deste ano, o saldo da balança de transações correntes era negativo em US$ 17,1 bilhões, depois de ter sido, em períodos idênticos de 2005, 2006 e 2007, positivo em, respectivamente, US$ 5,3, US$ 2,8 e US$ 2,4 bilhões, indicando, portanto, um  forte movimento de deterioração de nossas contas externas. Pois no dia 1.° de agosto o real alcança seu maior valor desde sua recuperação do terrorismo eleitoral de 2002: cada unidade da moeda doméstica chegou a valer então 64,20 centavos de dólar (o real vale hoje cerca de 43 centavos de dólar). Esses dados, portanto, não só não explicam o valor inchado da moeda brasileira há três meses como deixam claro o tamanho da bolha de câmbio que a crise pôs a nu.

Onde se encontra então a explicação? Não é preciso muita argúcia para perceber que ela está na condução da política monetária, com a manutenção, já há alguns anos,  da taxa básica de juros num nível extremamente elevado. A determinação desse preço pelas autoridades monetárias, em conjunto com a política de consolidação da abertura financeira do país, foi trazendo para nossa balança de capitais, em meio a um ambiente de enorme liquidez internacional, enxurradas de moeda forte, movimento evidentemente auxiliado, até antes da crise, pela expressiva elevação do preço em dólar das commodities que o país exporta e pelo, digamos assim, lastro que os sucessivos superávits comerciais pareciam representar. A abundância experimentada pela balança de capitais foi mais do que suficiente para encobrir a clara deterioração da balança de transações correntes e o dólar continuou a cair. Um único dado ilustra bem a situação: a Posição Internacional de Investimento elaborada pelo Banco Central mostra que o investimento estrangeiro em carteira passou de US$ 304 bilhões em dezembro de 2006 para US$ 510 bilhões em dezembro de 2007.

Essa parece ser, realmente, uma boa explicação para a formação dessa bolha de câmbio e aponta de fato para a raiz do problema. Contudo, ela não conta toda a história. Ocorre que a apreciação do real passou a ser ela própria, num movimento completamente auto-referencial, elemento integrante do jogo de elevada valorização financeira em moeda forte que se tornou possível fazer no país. Se a economia mundial tornou-se nas últimas décadas mais parecida com um cassino do que com uma oficina de produção, o Brasil não fez má figura, muito ao contrário. Formou-se um círculo vicioso em que o juro elevado trazia muitas divisas ao país, elevava as apostas na continuidade da valorização, produzia, assim, para os investidores externos, resultados em dólar ainda maiores, o que trazia mais dólares, e assim por diante.    

Fundos de hedge fazendo carry trade (tomando emprestado onde o juro é baixo e aplicando onde é elevado), investidores estrangeiros maximizando seu ganho em moeda forte, empresas exportadoras compensando no ganho financeiro com derivativos as perdas que a apreciação cambial lhes impunha no ganho operacional e chineses comprando todo o minério de ferro que a Vale era capaz de colocar no mercado, combinaram-se, dentre outros personagens, para produzir esse resultado. Com a inversão abrupta trazida pela crise, inverteu-se todo o jogo. Essa situação explica também a enorme dificuldade que vem tendo o Banco Central para conter o valor do dólar. Quem caiu na armadilha anterior procura zerar perdas e faz apostas contrárias, por mais que se ofertem dólares ao mercado.

O Brasil tomou a decisão de entrar na tal globalização pela porta financeira. Utilizou para tanto todas as armas de que dispunha, o juro elevado sendo a mais importante delas, e serviu ao longo desse tempo para cevar a valorização financeira de enormes quantidades de capital fictício. Improvável seria que uma crise como esta, gestada nos meandros desse tipo de valorização, passasse ao largo de uma plataforma avançada como a da economia brasileira.

 

(*) Professora Titular do Departamento de Economia da FEA/USP e autora de Brasil Delivery (Boitempo, 2008)

Par Fórum da Ocupação
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