Experiência, lugar e fragmentação

Publié le par Fórum da Ocupação

Experiência, lugar e fragmentação
( Ocupação )
Por Débora Chammas

Durante a ocupação a grande maioria dos que por lá estiveram atentaram para algo que foi um de seus grandes motores: o espaço de convivência que se tornou a reitoria naqueles dias. Havia local físico, recursos (computadores, internet, cozinha, banheiro, auditório, espaço para reuniões, etc.), pessoas circulando e temas que borbulhavam. Discussões e trocas por cada um dos espaços. Rodas no chão, assembléias, filmes, ‘Cultura de Greve’, apresentações artísticas. Cada atividade à sua maneira com os mais variados temas. Alunos, professores e funcionários engajados e críticos em constante convite aos que até então não haviam atentado para qualquer movimento comum. Convite direto e explícito, via blog, cartazes, agendas, fervor nos meios de comunicação e convite implícito, este pelo fato mesmo de existirem os citados debates, rodas, filmes. Convite por aquilo que se ofertava como existente, como possibilidade. Lembremos da própria entrada da ocupação, que virou símbolo por sua fogueira, feita fogo, e pelos pneus ali colocados. Para os de fora, provavelmente, uma repulsiva entrada, porque controlada e cuidada. Para os ‘com carteirinha’ e afins, a mais das acolhedoras. Porque desde ali, à chegada de uma distante e curiosa pessoa, qualquer um dos que na porta estivesse como ‘cuidador’ do espaço (havia rodízio dos alunos da porta) se dispunha a começar um conversa, contando desde os princípios como a ocupação havia ocorrido, o que vinha acontecendo, os temas em debate, as próximas agendas.

A convivência era de tal modo intensa e crescente que escancarou a idéia do quanto os espaços de integração são em sua essência o espaço para troca, o espaço para a práxis. Escancarou-se não apenas como uma idéia, mas como experiência vivida e vívida. Clareza ‘na’ e ‘pela’ experiência. Lucidez. E foi muito mais forte do que qualquer idéia poderia supor, porque a cada troca o movimento crescia, crescia de novas idéias, de debates, argumentações e contra-argumentações, de cultura, tal que a própria convivência se tornou um tema explicitamente em debate. E o pessoal da psicologia fez até grupo operativo para compartilhar não apenas a idéia do espaço comum, mas para a troca do modo mesmo como cada um vinha subjetivamente vivendo a troca. 

Que espaços temos na USP? Os corredores e lanchonetes em que alunos tímidos (pela própria configuração do espaço e ausência de atividades integradoras) pouco se falam, estando sempre a procura de pequenas rodas, nas quais se sentem mais a vontade para colocarem-se? E os espaços ‘inter-unidades’ então, o que dizer deles? Ah sim, eles existem. Os bandejões, com foco único, refeições. O CEPE, esportes. Incluamos na lista a Faculdade de Educação, que apesar da dificuldade na estrutura, ainda abarca os cursos de licenciatura que permitem que alunos de diversas unidades se sentem numa mesma sala e se reúnam para realização dos trabalhos acadêmicos. Sim, a licenciatura ainda possibilita um mínimo de espaço de troca, mas está fadada a acabar neste modelo e esconder-se no interior de cada unidade, continuando a segregação a título da melhora da qualidade do ensino e do peso para a unidade em questão . Resolve-se a falta de estrutura não pela ampliação ou contratação, mas pela segregação. E nesta contagem tão escassa de espaços inter-unidades, neste projeto arquitetônico uspiano de corpos isolados, seríamos até capazes de incluir as ruas e avenidas e uma praça que, no fundo, não passa de uma via de circulação de transeuntes, já que tantos metros quadrados reduzem-se a um vasto espaço sem uso e de estada ora poética ora insuportável pela pressa dos estudantes, pela aridez do sol a pino ou do vento solitário que por ali percorre. E nosso tão lindo relógio a denotar a aridez. E quem se esqueceria dele recoberto pela grande faixa, ‘Universidade Livre’? 

Não nos esquecemos da praça, da Universidade Pública Livre e de qualidade, da integração vivida e dos inúmeros projetos que se imaginou por ali. Não esquecemos da idéia experienciada de um Espaço de Integração apropriado pela comunidade USP e afins que alguns até planejaram como uma ‘Oca’. Chegou-se até a discutir uma desocupação com sua construção simbólica e coletiva na praça do relógio, discussão esta que se perdeu em meios aos acontecimento da ocasião. O que se vislumbrava era espaço que pudesse abarcar projetos e atividades comuns, porque espaço sem vida também não funciona. Espaço aberto à circulação e troca. Espaço de Cultura semanal, de eventos constantes, das assembléias, de filmes, teatros, workshops, dança e debates, atividades que até existem no interior no cotidiano uspiano, mas que ficam reclusas e dispersas nas unidades e que existem por iniciativas de poucos. Espaço, não somente, mas também para o movimento estudantil, que hoje marca reuniões onde pode, no Canil da Eca, no interior da FFLCH.

Mas, o espaço vivido na ocupação, tão vivamente, hoje volta a ser uma idealização. Atropelado, manco, fadado talvez a virar memória de poucos sonhadores. Massacrado pelo dia a dia no qual um projeto de espaço não cabe. Massacrado pela pouca força que os argumentos que lhe comporiam poderiam ter, pela dificuldade de uma possível implementação incluindo o investimento e pelo medo de que ele pudesse vir a falhar pelo não uso ou não administração. Massacrado por um cotidiano nos quais os encontros de socialização, cultura ou debate político precisam se reduzir - tal como podem - nos interiores das unidades segregadas, dependentes de uma comunicação pouco presencial via grupos virtuais - que nascem da iniciativa dos poucos que conseguem manter a luta viva - redução esta que ilude apontando para uma possível falsa idéia de não participação potencial e portanto levando à falência da própria idéia do projeto do espaço.

A falta de lugar reduz drasticamente a integração, criação, política e produção de cultura. Despedaça encontros frutíferos e cliva movimentos, que, obviamente não têm força na fragmentação. A ocupação mostrou que a participação ocorre na apropriação e criação constante de valores na e pela experiência. Foi frutífera, entre outros, por seus ideais, pela resistência (decretos e sucateamento do ensino público), pelo modo de organização do movimento estudantil descentralizado e por ser um corpo composto de lugar, cultura, propostas, atividades e circulação constante de pessoas e idéias. Urge a luta pelos espaços coletivos, Porão, Oca, Colméia, ou outros, e pelo modo como serão feitos os projetos de reforma tal como o da FFLCH, levando em conta que espaços também produzem subjetividades e modos de encontro.




Publié dans Movimento Estudantil

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Paulinha 24/11/2007 21:34

Nhé

osama 21/11/2007 15:27

Texto muito bem escrito e portador de uma discussão muitas vezes posta de lado em função de tendências políticas e pessoais diversas. O fato da ocupação da reitoria, indubtavelmente, aglutinou: militantes, não-militantes, partidários, apartidários, simpatizantes ou não. Todos interagindo, descentralizadamente, reforçando uma convivência e uma relação de troca de conhecimentos e respeito raramente fomentados nos espaços da USP.
Cabe agora, nos valermos do fato político do qual participamos e na tônica dele aproximar atividades, entidades e unidades.

Eu 19/11/2007 17:33

Puta discussão inútil. O artigo fala de um problema mais importante e que espelha esta briga secundária.
Parabéns para o blog e para a articulista.

Davi 19/11/2007 17:24

Minha cara Débora, gosto do seu nome, ele também começa com D,tudo que começa com D é divino.
O movimento estudantil é esquálido porque é feito de muito poucos.
O movimento estudantil é vaidoso porque estabelece fins que são trados como partida de futebol, não se altera com andamento das lutas, e vitórias para ele são vitórias estabelecidas dentro do mesmo campo dito de "esquerda", comemoram como um título as vitórias sobre os outros grupelhos ditos de esquerda. É a vaidade de vencer dentro da própria casa, não importando os meios para se chegar aos fins.
É imediatista porque se mexe em casos esporádicos e midiáticos, por isso também é mesquinho, além de considerar justas somente as suas pautas.
É retórico porque fica no blá blá blá e só no blá blá blá.
Estive na ocupação e me empolguei no começo, quando vi a briga fratricida interna e as motivações mesquinhas que as movivavam, despiroquei. Até esses que vcs chamam de independentes, alguns estão mostrando quem são: CARREIRISTAS. É só ver os que ficam babando atrás dos mestres de "esquerda", os grandes teóricos da "esquerda", e tudo o que importa para esses alguns é virar rd em alguma congregação da USP ou departamento. A bandeira deles é essa, tá ligado!?
As generalizaçãos podem se transforma em autistas. O movimento estudantil é autista com seus partios politicos obscurantistas e seus carreiritas oportunistas.
Davi

Débora 19/11/2007 16:30

Fico me questionando, Davi, que contribuições você teria? Em seu ponto de vista, como acha que dá para viabilizar ações? Quem sabe além de indignação você não poderia ter ação, ou dar sugestões, já que as pessoas que tão trabalhando ainda por alguma causa se esforçam tremendamente, não encontram possibilidade de mais ação em meio a tanta resistência e já que você, parece, consegue enxergar a possibilidade delas. Não entendi, na real, se sua clocação refere-se a tipo de estratégias para ação, ou se tá denunciando que não dá pra ter ação com tanta resistência. Agora, se a questão for estratégia, mais ou menos ousada etc, isto é uma questão de argumentação. Quanto à crítica do movimento vaidoso e mesquinho você deve ter dados que te fizeram em certo momento concluir isto, mas de verdade, as generalizações podem se tornar autístas e já não abertas a novos dados da realidade. Imediatista? Esta ainda falta vc explicar, pois, entendo que o movimento está sempre fazendo leituras e prognósticos do seu tempo e política, colados na realidade mas vislumbrando futuros.