Bolhas Brasileiras

Publié le par Fórum da Ocupação

Bolhas Brasileiras

 Leda Maria Paulani*

 A reação inicial do governo brasileiro à explosão da crise financeira que se iniciou em meados de setembro nos EUA (mas ela já estava em germe há muito tempo) foi dar de ombros: “a crise é lá deles, eles que a resolvam”. Contradições à parte, visto que se buscou desde FHC afirmar que nossa economia era agora aberta, “moderna”, perfeitamente integrada à economia global, a continuidade dos acontecimentos foi tornando insustentável a resposta desdenhosa.   Nossa bolsa caía aqui mais do que em qualquer outra parte do mundo, o crédito externo desaparecia como por encanto, os dólares começavam a bater em retirada e sua cotação em reais subia como um foguete. Com todo esse tumulto, as autoridades foram instadas a tomar uma providência e quem se mexe para intervir no ambiente econômico por conta da intromissão de eventos não previstos não pode mais afirmar que eles não existem.

O governo começa assim a admitir que uma parte da crise sobraria para a sortuda economia brasileira, brindada então com as descobertas do pré-sal. Essa nova posição, porém, restringia-se à admissão de que a crise mundial poderia afetar as exportações brasileiras, combustível para o crescimento, e que o sumiço do crédito externo, até então abundante, e o aperto do interno, em função da crise de confiança, dificultaria a vida das empresas e prejudicaria o consumo. Em suma, complicações que viriam pelo assim chamado “lado real” da economia. Implícita nessa postura a idéia de que a desordem financeira não tinha aqui lugar, que o sistema financeiro brasileiro era sólido e que aqui não havia bolhas de ativos que pudessem estourar inopinadamente. Contradições à parte mais uma vez, já que a queda desbragada do índice Bovespa, rompendo todas as marcas psicológicas imagináveis, não era outra coisa senão a expressão da existência de uma poderosa bolha no mercado acionário, a realidade novamente derruba as interpretações oficiais: tradicionais e respeitadas empresas nacionais do porte de Aracruz, Sadia e Votorantim enfiavam os pés pelas mãos, pegas no contrapé pela inversão abrupta e profunda do movimento da taxa de câmbio, vendo cair por terra polpudas apostas na continuidade da valorização da moeda doméstica (o que implicava para elas, por estranho que pareça em sendo elas empresas exportadoras, torcer pela continuidade da apreciação do real e, por tabela, pela continuidade da política monetária).  Sinal, portanto, de uma bolha também no mercado de derivativos, “produto” típico do assim chamado “mercado financeiro”.  A complicação aqui parece ser ainda maior porque, segundo os próprios executivos do mercado, a maior parte dessas apostas foi feita no mercado de balcão, sobre o qual não se exerce nenhum tipo de controle, de modo que ninguém sabe exatamente qual é o tamanho desse buraco (as três empresas em conjunto somam R$ 5 bi de perdas, mas estima-se que há mais de 200 empresas com o mesmo problema).

Por trás desses movimentos, particularmente no que concerne aos derivativos, a existência da bolha maior, representada pelo valor inflado do real. Consideradas as moedas periféricas mais relevantes, o real foi campeão de desvalorização. O dólar americano vale hoje 50% mais do que há três meses — o real perdeu cerca de 1/3 de seu valor — e não fossem as insistentes  e substantivas intervenções do Banco Central e as declarações de que estaria disposto a ofertar até US$ 50 bilhões em swaps cambiais e/ou gastar até 10% das reservas para defender nossa moeda, essa perda teria sido evidentemente muito maior. Só para ilustrar, os pesos chileno e mexicano não perderam mais do que 10% de seu valor.

Como explicar esse valor inflado do real? Os defensores do livre mercado apressam-se a dizer que câmbio flutuante é câmbio flutuante e que a moeda forte custa aquilo que o mercado, sempre o melhor juiz, julga que ela deve custar em cada momento. E supondo que os agentes, principalmente esses do mercado, são racionais e não se deixam levar cegamente pelas variações nas quantidades dos bens, principalmente sendo o bem em questão a divisa, em quais variáveis deveria o mercado se basear para fazer tal julgamento? Qualquer aluno de segundo ano de Economia diria sem titubear que o mercado deveria estar sempre de olho na performance do balanço de pagamentos do país. Ora, se tomarmos os dados desta peça contábil, veremos que, nos dois primeiros trimestres deste ano, o saldo da balança de transações correntes era negativo em US$ 17,1 bilhões, depois de ter sido, em períodos idênticos de 2005, 2006 e 2007, positivo em, respectivamente, US$ 5,3, US$ 2,8 e US$ 2,4 bilhões, indicando, portanto, um  forte movimento de deterioração de nossas contas externas. Pois no dia 1.° de agosto o real alcança seu maior valor desde sua recuperação do terrorismo eleitoral de 2002: cada unidade da moeda doméstica chegou a valer então 64,20 centavos de dólar (o real vale hoje cerca de 43 centavos de dólar). Esses dados, portanto, não só não explicam o valor inchado da moeda brasileira há três meses como deixam claro o tamanho da bolha de câmbio que a crise pôs a nu.

Onde se encontra então a explicação? Não é preciso muita argúcia para perceber que ela está na condução da política monetária, com a manutenção, já há alguns anos,  da taxa básica de juros num nível extremamente elevado. A determinação desse preço pelas autoridades monetárias, em conjunto com a política de consolidação da abertura financeira do país, foi trazendo para nossa balança de capitais, em meio a um ambiente de enorme liquidez internacional, enxurradas de moeda forte, movimento evidentemente auxiliado, até antes da crise, pela expressiva elevação do preço em dólar das commodities que o país exporta e pelo, digamos assim, lastro que os sucessivos superávits comerciais pareciam representar. A abundância experimentada pela balança de capitais foi mais do que suficiente para encobrir a clara deterioração da balança de transações correntes e o dólar continuou a cair. Um único dado ilustra bem a situação: a Posição Internacional de Investimento elaborada pelo Banco Central mostra que o investimento estrangeiro em carteira passou de US$ 304 bilhões em dezembro de 2006 para US$ 510 bilhões em dezembro de 2007.

Essa parece ser, realmente, uma boa explicação para a formação dessa bolha de câmbio e aponta de fato para a raiz do problema. Contudo, ela não conta toda a história. Ocorre que a apreciação do real passou a ser ela própria, num movimento completamente auto-referencial, elemento integrante do jogo de elevada valorização financeira em moeda forte que se tornou possível fazer no país. Se a economia mundial tornou-se nas últimas décadas mais parecida com um cassino do que com uma oficina de produção, o Brasil não fez má figura, muito ao contrário. Formou-se um círculo vicioso em que o juro elevado trazia muitas divisas ao país, elevava as apostas na continuidade da valorização, produzia, assim, para os investidores externos, resultados em dólar ainda maiores, o que trazia mais dólares, e assim por diante.    

Fundos de hedge fazendo carry trade (tomando emprestado onde o juro é baixo e aplicando onde é elevado), investidores estrangeiros maximizando seu ganho em moeda forte, empresas exportadoras compensando no ganho financeiro com derivativos as perdas que a apreciação cambial lhes impunha no ganho operacional e chineses comprando todo o minério de ferro que a Vale era capaz de colocar no mercado, combinaram-se, dentre outros personagens, para produzir esse resultado. Com a inversão abrupta trazida pela crise, inverteu-se todo o jogo. Essa situação explica também a enorme dificuldade que vem tendo o Banco Central para conter o valor do dólar. Quem caiu na armadilha anterior procura zerar perdas e faz apostas contrárias, por mais que se ofertem dólares ao mercado.

O Brasil tomou a decisão de entrar na tal globalização pela porta financeira. Utilizou para tanto todas as armas de que dispunha, o juro elevado sendo a mais importante delas, e serviu ao longo desse tempo para cevar a valorização financeira de enormes quantidades de capital fictício. Improvável seria que uma crise como esta, gestada nos meandros desse tipo de valorização, passasse ao largo de uma plataforma avançada como a da economia brasileira.

 

(*) Professora Titular do Departamento de Economia da FEA/USP e autora de Brasil Delivery (Boitempo, 2008)

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