Israel e suas bombas nunca quiseram a paz

Publié le par Fórum da Ocupação

Israel e suas bombas nunca quiseram a paz

Haim Bresheeth
(Professor-titular de Estudos sobre Mídia, na University of East London.
Co-autor de The Gulf War and the New World Order)


The Electronic Intifada, 31/12/2008
http://electronicintifada.net/v2/article10080.shtml


Como uma espécie de 'encarnação' da tese do "choque de civilizações" de Huntington, Israel é, como sempre foi, mais exposta ou mais veladamente, um bastião do mundo judeu-cristão, contra os árabes e o Islam.

Enquanto aumenta hora a hora o número de mortos em Gaza, e caem os últimos prédios que ainda restavam da estrutura administrativa do governo eleito do Hamás, sob o fogo dos aviões e helicópteros israelenses, outra vez estamos assistindo a um inacreditável fenômeno – um massacre anunciado que, contudo, parece ter colhido de surpresa todos os líderes políticos mundiais, como se eles, ao contrário do resto da humanidade, jamais lessem jornais ou assistissem aos noticiários de televisão.

No verão de 2006, depois de meses de ameaças, por Israel, de que invadiria o Líbano e "arrasaria" o Hizbóllah, os líderes mundiais também pareceram ocupados demais para dar atenção às notícias (antes) e "muito chocados" (depois). Para sermos precisos, mostraram-se "muito chocados" durante um mês inteiro, um mês de carnificina e destruição, exatamente o tempo de que Israel supunha que precisasse. Até que Israel passou a precisar desesperadamente de um cessar-fogo, depois que as coisas, no Líbano, passaram a 'fugir do script' previsto por Israel.

Então, repentinamente, as nações ocidentais, do dia para a noite, impuseram o cessar-fogo. Pois, ainda assim, fracassaram no projeto de ajudar Israel a "arrasar" o Hizbóllah. Fato é que, quando só quem viva com a própria moral sob bloqueio absoluto ainda encontra justificativa para o projeto assassino, bárbaro, ilógico, de Israel, a questão verdadeira é: até onde as nações ocidentais permitirão que avance o projeto perverso de Israel? Até que ponto o ocidente aceitará que os criminosos escapem impunes?

Depois de 40 anos de ocupação brutal, depois de já terem sido violadas incontáveis resoluções da ONU e das Convenções de Genebra, com centenas e milhares de mortos em todos os países que cercam a Palestina, para não falar nos mortos de hoje na Palestina, depois de terem sido ignorados numerosos acordos, iniciativas, cúpulas, Mapas do Caminho e Prêmios Nobel, estamos no ponto em que estávamos há 40 anos, mas em cenário muito mais trágico.

Não poderia estar acontecendo, mas está; e continuará a acontecer, arrastando cada vez mais todo o mundo político ocidental para o sorvedouro que é o conflito Israel-Palestina, hoje já convertido, ao que parece, em conflito Ocidente vs Palestina. Nada disso poderia estar acontecendo. E não aconteceria, se os líderes políticos mundiais não se tivessem mantido de olhos fechados – aplicadamente fechados, decididamente, devotadamente, metodicamente fechados – para os fatos, durante décadas.

Então... o que fazem os líderes políticos hoje, quando Israel outra vez, outra vez, outra vez, ataca 1,5 milhão de palestinenses, depois de ter tentado matá-los de fome durante quase dois meses? Depois de lhes ter roubado qualquer possibilidade de encontrar trabalho, comida, remédios, combustível, eletricidade ou água? O que os líderes do "mundo democrático", Bush, Brown, Berlusconi ou Sarkozy – todos apoiadores fiéis (ou reféns?) de Israel – fazem hoje? O que aprenderam com as centenas de incursões de Israel contra Gaza? O que aprenderam com a destruição cíclica, continuada, do Líbano, que recomeça cada vez que algum primeiro-ministro israelense sente que precisa reforçar sua posição eleitoral?

Bem se poderia perguntar, ao pensar sobre esses líderes do Mundo Livre, o que aprenderam das lutas no Vietnam, na Nicarágua, no Iran, Iraque ou Afeganistão ou Paquistão, conflitos dos quais participaram, sempre tão zelosos na defesa de alguma democracia.

A verdade é que o ocidente jamais aprendeu o que haveria a aprender em todo o seu longo passado colonial e imperial, ou no presente, das agressões e crimes de guerra que o mesmo ocidente continua a cometer até hoje. Só mudou, até hoje, a quantidade e a extensão da violência militar – como se, para resolver conflitos, bastassem as armas e a violência, mais violência, violência cada vez maior, não é?

Os soviéticos também creram que, com muita violência e quantidade inacreditável de armas, derrotariam ao Afeganistão; e tantos políticos ocidentais ainda crêem nisso, embora já comece a haver quem consiga ver que não, que as coisas não têm dado muito certo, de fato.

Israel usa essa política imbecilizada há 60 anos – se você atacar todos à sua volta, e se for o mais fortemente armado exército do Oriente Médio, você estará livre para fazer o que quiser; assim haverá paz e progresso (mesmo que jamais tenha havido).

É verdade. O exército de Israel é suficientemente poderoso para destruir todo o Oriente Médio (e, de fato, também para destruir parte importante do ocidente). O único problema é que, até hoje, jamais conseguiu mandar, sequer, no território em que lhe caberia mandar. O mais poderoso exército do mundo está detido, ainda, pela resistência palestinense. Como entender essa contradição?

Bem, para começar, Israel jamais trabalhou para construir qualquer paz com os palestinenses; jamais usou outro meio que não fossem os meios do extermínio, da limpeza étnica, do holocausto, para matar as populações nativas e residentes históricas na Palestina, desde a fundação do Estado de Israel, em maio de 1948.

Israel expulsou 750 mil palestinos, converteu-os em refugiados e, em seguida, passou a impedir sistematicamente o retorno deles e de seus filhos (hoje, também, já, dos netos deles), apesar das Resoluções da ONU, ao mesmo tempo em que continuou a destruir cidades e vilas, ou – o que é o mesmo – passou a construir colônias de ocupação sobre as ruínas das cidades e vilas palestinenses.

Desde 1967, Israel fez tudo que algum Estado poderia fazer para tornar impossível qualquer solução política: colonizou por vias ilegais territórios ocupados por via ilegal e recusou-se a acatar os limites de antes das invasões de 1967; construiu um muro de apartheid; e tornou a vida impossível para a maioria dos palestinenses. Nada, aí, faz pensar em esforço de paz. Antes, é operação continuada e sistemática para a limpeza étnica dos territórios palestinenses ocupados ilegalmente.

Assim sendo, se a paz implicar – como implica necessariamente – o fim do mini-império construído por Israel, Israel continuará a fazer o que estiver ao seu alcance para que não haja paz, mesmo que a paz lhe seja oferecida numa bandeja, como a Iniciativa de Paz dos sauditas, recentemente, por exemplo. Outra vez, não se entende: se os israelenses só tinham a esperar esse tipo de oferta, se desejassem alguma paz, porque a rejeitaram, praticamente sem nem a considerar?

Faz tanto tempo que Israel rejeita toda e qualquer possibilidade de paz, que a maioria dos israelenses já nem são capazes de ver que rejeitar a paz converteu-se, para Israel, numa espécie de segunda natureza.

Mas o motivo mais aterrorizante pelo qual nenhuma iniciativa de paz jamais teve qualquer chance de prosperar tem a ver, de fato, conosco, com o ocidente.

Israel continua a ser apoiada pelas democracias ocidentais como uma espécie de força delegada, como batalhão ocidental avançado, implantado na entrada do mundo árabe, mais indispensável, tanto quanto mais dependente do ocidente, que regimes-clientes, como os sauditas e como o Iraque de Saddam até 1990.

Como uma espécie de 'encarnação' da tese do "choque de civilizações" de Huntington, Israel é, como sempre foi, mais exposta ou mais veladamente, um bastião do mundo judeu-cristão, contra os árabes e o Islam.

Isso já era verdade há décadas, mas jamais foi mais verdade do que na última década, quando a Ordem do Novo Mundo entrou em crise terminal, e começou-se a ouvir falar da "Doutrina do Choque", de "Choque e Horror", de várias 'operações' tempestade contra os desertos da Ásia e sempre contra os islâmicos.

Israel, não o Iran, possui armas nucleares e é capaz de usá-las – e várias vezes já ameaçou usá-las. Mas fala-se como se o perigo viesse do Iran, não se Israel. Os que propõem a destruição do Iran são os mesmos mercadores de tragédias que impingiram aos EUA e à Inglaterra o custo altíssimo da guerra do Iraque.

Pensemos, por um momento: o que sentiria um muçulmano inglês, se parasse para pensar sobre um mundo no qual os eternos culpados, os "terroristas", os extremistas, os insurgentes sempre são os muçulmanos, eternamente caçados pelas grandes forças da chamada "lei e ordem" internacional, do chamado Mundo Livre? Não surpreende que alguns poucos ingleses, nascidos britânicos e criados como muçulmanos, considerem aceitáveis as bombas que explodiram em Londres. Mas alienar cada vez mais os muçulmanos e matar um número cada vez maior de muçulmanos será alguma espécie de solução para essa situação explosiva?

1000 anos depois do início das Cruzadas, é-se ainda tentado a perguntar se não é hora de fechar o livro, dar por fracassados a tentativa e o modelo, enterrar os escudos e reiniciar novo processo de contato e de conversação?

Verdade é que não haverá contato nem será possível qualquer conversação, enquanto o Mundo Livre continuar refém do modelo israelense de solucionar conflitos – bombardeie os diferentes, até reduzi-los a pó; isso feito, ninguém terá de conversar com ninguém; e, caso seja indispensável conversar, 'eles' baixarão a cabeça depois de as bombas os terem varrido do mundo.

Até quando continuaremos a aceitar a chacina e a matança como plataforma para o diálogo? Alguém conhece algum caso em que a solução à moda Israel & bombas tenha jamais levado à paz?

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