"Centro de Língua" e cursos pagos na FFLCH

Recentemente numa palestra a estudantes, ouviu-se de uma professora, crítica das Fundações e cursos pagos: “...eu adoraria se vocês ocupassem o Centro de Línguas e exigissem cursos gratuitos de inglês, francês, espanhol e alemão. Isto seria para começar, porque depois vocês pediriam hebraico, russo...”. É provável que ela estivesse brincando...talvez não. 
 
O fato é que a anedota remete para o problema que é o Centro de Línguas da FFLCH. A unidade mais crítica das Fundações e cursos pagos dentro da Universidade, cobra para ministrar cursos de língua dentro do seu próprio espaço, cuja gerência está a cargo de professores concursados, muitos sob regime de dedicação integral. A cobrança recai tanto para membros da comunidade USP quanto para o público externo.
 
Até pouco tempo o ensino de línguas era oferecido gratuitamente aos alunos. Hoje não mais o são. De outro modo, o Estatuto da Universidade dá a possibilidade de se assistir as aulas regulares de línguas na Faculdade de Letras, mas devido ao aumento desordenado e irresponsável de vagas, as turmas estão abarrotadas e os professores só têm condições de receber alunos matriculados e ranqueados da própria Faculdade, nem como ouvinte se pode entrar em sala de aula. Desta forma o que é direito deixa de sê-lo, ainda que oficialmente e no papel permaneça como tal.
 
Todos sabem que cursos pagos dentro de universidade pública é inconstitucional. Mas isto parece não incomodar. Eles existem em praticamente toda a USP, na sua maioria sem regulamentação. O argumento mais corriqueiro para mantê-los é de que a Universidade precisa captar recursos , uma vez que o repasse de ICMS é insuficiente para financiar o funcionamento da Universidade. Desta forma os defensores dos cursos pagos na FFLCH, afirmam que as contas da Faculdade não fecham sem o dinheiro do Centro de Línguas – fato desmentido por muito docentes e o ex-diretor da Faculdade, professor Sedi Hirano. Por outro lado os críticos dizem que é uma forma de privatizar a Universidade por dentro.
 
Seja como for, observamos que o discurso do desmanche da universidade pegou. A maioria, em vez de resistir ou debater, adere a soluções privatizantes como dados inexoráveis, fazem silêncio sobre a falta de regulamentação do Centro de Línguas. Tomam decisões de gabinete sem discutir o problema publicamente, até que todos considerem normal a existência de cursos pagos na FFLCH, como se toda Faculdade de Letras nascesse naturalmente com o seu centro de línguas.
 
Não dizemos, a priori, que o Centro de Língua não deva existir, mas queremos que sua pertinência e modus operandi (hoje, pouco transparente) sejam discutidos publica e polemicamente, antes que a  FFLCH (repetimos: a unidade mais crítica às Fundações e cursos pagos) passe a vergonha de responder a uma ação de inconstitucionalidade, ou, ainda, um processo por concorrência desleal vindo do Yazigi, Cel-Lep, Wizard e afins. Esta discussão coletiva seria salutar, poderia ser paradigmática a toda Universidade. Precisamos enfrentar o problema da falta de verbas, de onde e como buscar financiamento para manter a excelência. Mas esta não pode ser uma tarefa meramente técnica, decidida por iluminados. Dizer que o assunto está sendo tratado por pessoas sérias, mas não colocá-lo à mesa, é cantilena para tratar privadamente o que é um bem público. Assim, é também uma questão política, cuja solução só pode surgir de discussão ampla com todos atores envolvidos. Deixar como está é no mínimo vergonhoso.