Sem funcionários não há congresso. Sem congresso...

Publié le par Fórum da Ocupação

O V Congresso, enquanto pauta da Ocupação, na sua origem tinha como perspectiva sua difícil realização, tendo em vista a aposta de que poderia transpor a mera institucionalidade própria do espaço reivindicado. Apesar da oportunidade dada, com potencial para subverter a ordem, teve sua organização postergada por uma apatia geral diante dele. Somente em meados de março iniciou-se um processo efetivo de concretização, antes disto houve algumas iniciativas de uns poucos abnegados. No entanto, de março para cá, no que concerne ao ME, a força burocratizante do DCE engessou os estudantes, de forma a ser elemento central na impossibilidade de mobilização da estudantada em torno do Congresso, transformando, assim, qualquer cifra de radicalidade em mero murmúrio. Evidentemente o DCE não é único responsável no meio do ME, mas sem dúvida o mais decisivo.

No meio de um cenário geral de terra arrasada, depara-se agora com atitude discriminatória da reitoria em não dispensar os funcionários na semana do Congresso, diferentemente de professores e estudantes que estão liberados, delegados ou não. Numa decisão compreensível, com a qual devemos ser solidários, os trabalhadores da USP decidiram não participar do Congresso caso a reitoria prossiga nesta postura.

Na semana passada, em nome da Comissão Organizadora do Congresso, a Adusp encaminhou ofício à reitoria com uma série de pontos e solicitações referentes à realização do Congresso, um deles pedia a dispensa dos funcionários. Na figura do chefe de gabinete, Alberto Carlos Amadio, a reitoria, malandramente, adotou uma solução para dizer não pela boca dos outros; de forma que ficou a cargo de seus vassalos (diretores de unidades) decidir se dispensam os funcionários ou não, com a recomendação que se o fizerem, façam-no somente em relação àqueles eleitos delegados. Dito noutras palavras, uma forma obtusa de dizer não e afirmar a discriminação.

Sobre isto, parece interessante lembrar que a reitora Suely Vilela do ano passado para cá mudou sua forma de fazer política. Durante a ocupação revelou inépcia, instabilidade e total despreparo para o cargo – despreparo não é novidade na maioria dos reitores da USP –. Na consecução da primeira pauta aceita da ocupação, Audiência Pública sobre o Inclusp, ainda havia resquícios destas características, somado a um autoritarismo exacerbado. Na ocasião ela criou todo tipo de dificuldades para realização da Audiência. Todo desgaste e tensão da comissão organizadora era com a reitoria.

De lá para cá, ou ela ficou mais perspicaz, o que é improvável, ou está melhor orientada, o que é mais provável. Uma vez que tem posado de liberal ao ser eficiente em criar uma falsa imagem, ou seja, aparentemente não tem gerado empecilhos para realização do V Congresso. Colocou-o na agenda oficial da USP, tem dado resposta a todos os pedidos da comissão organizadora, muito deles atendidos. Parece que compreendeu que é melhor ter um espaço de contestação autorizado e controlado, que gerar tensão ao proibi-lo e abrir, aí sim, um campo dotado de real disposição à mudança. Além do que, agindo assim, ela dá oxigênio à entidades e agentes petrificados e sem ânimo para a luta efetiva, que levam consigo o mais eficiente meio de controle, e de baixo custo, que é o autocontrole. Corrobora tudo isso o fato de que, diferente da Audiência Pública sobre o Inclusp, até a proibição na liberação dos funcionários, o desgaste e tensão da comissão organizadora deu-se no seio do próprio movimento, que tem se consumido em brigas internas, comprometendo as poucas chances de êxito do V Congresso, claro, tudo com a contribuição fundamental de um inábil e autoritário DCE representado na gestão Vez e Voz (inábil é uma concessão, porque se assim não o for, então deliberadamente agiu-se para fragmentar mais ainda o já atomizado movimento estudantil da USP).

No entanto, o recente gesto da reitora, que costuma confundir força com autoridade, pode, talvez, amalgamar a frágil união conseguida e perdida na Ocupação, união que pode vir da solidariedade inequívoca com os funcionários da USP e de uma ação efetiva contra a ofensa perpetrada. Porém, se isto ocorrer, que não percamos de vista a necessidade de criarmos nossas próprias demandas, muito bem fundamentadas teoricamente e com projeto político real e claro, para que não nos mobilizemos somente para reagir a governos autoritários e reitores incompetentes.

De toda forma, alguns grupos políticos e estudantes independentes, acertadamente, decidiram que não entram no  Congresso sem a dispensa de todos os funcionários da USP. Em vez do Congresso, estaremos na porta da reitoria exigindo a dispensa dos funcionários e denunciando o caráter arbitrário dos gestores uspianos. 
 
PS.: Segue deliberações da Assembléia Geral da Adusp, de 19/05, sobre os recentes acontecimentos em torno do V Congresso, que consta no boletim informativo de nº 119 da entidade:
 
Assembléia Geral da ADUSP de 19/5/08
Deliberações quanto ao V Congresso da USP:


1) Consideramos fundamental a participação dos funcionários no V Congresso da USP. Reivindicamos que a Reitoria da USP reúna-se com o Sintusp – o mais breve possível – com vistas a negociar a liberação dos funcionários para participar do V Congresso da USP;

2) Se a participação dos funcionários não for viabilizada, proporemos aos estudantes, em função dos esforços conjuntos já realizados, que o evento de 26 a 30/5 seja transformado no I Encontro de Professores e Estudantes da USP. Além disso,  proporemos a estudantes e funcionários que o V Congresso seja realizado no 2° semestre de 2008;

3) Reunião aberta do Conselho de Representantes da Adusp segunda-feira, 26/5, às 9h30, na sede da Adusp em São Paulo para consolidar a lista de delegados e suplentes dos docentes.

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