Quando os estudantes entram na cena política

Publié le par Fórum da Ocupação

Ainda sobre Maio de 68, reproduzimos interessante artigo publicado no jornal dos estudantes da FMUSP, O Bisturi, escrito por Douglas Anfra(Filosofia/USP):

Quando os estudantes entram na cena política

 

Puedo decir que nos han traicionado? No. Que todos fueron buenos? Tampoco. Pero alli está una buena voluntad, sin duda y sobretodo, el ser así.

César Vallejo, Trilce, canto LVII

 

Maio de 68 traz muitas questões. O que fez com que os estudantes saíssem repentinamente das Universidades e em todo o mundo se mobilizassem como sujeitos políticos no sentido de uma luta orientada por bandeiras diferentes das pautas liberais e de esquerda de até então e, mais ainda, numa luta anticapitalista?

 

Esta pergunta é difícil e há um mar de livros sobre o tema surgidos de questões que apareceram dos dois lados das barricadas.

 

O Estudante é uma força subversiva?

Se pensarmos nas atividades do estudante que não diretamente o estudo, vemos como o seu papel político muda ao longo da história. Na Universidade de Paris, em 1432, já se notava a tentativa, até hoje infrutífera, de proibição de uma atividade extra-curricular bem famosa, o trote. Pensar nesta atividade é interessante, porque apesar de ser desde sua origem contra ou paralela à instituição, ela se mantém dentro das balizas da ordem institucional (e mesmo as pressupõe), afirmando-a com maior intensidade.

Chamado Bejaunus, o calouro era comparado a um animal (Bejaunus quer dizer bico amarelo) e sua entrada ao reino dos homens era intermediada pela purgatio (purgação), uma série de humilhações equivalentes ao trote de hoje. A violência mantinha a hierarquia de uma sociedade dividida em estamentos.

Mas nenhum trote estudantil foi tão radical quanto o da Alemanha, onde mortes eram freqüentes e as odes aos nacionalismos e ao militarismo inspiraram os jovens alemães.  Cederam quadros que se alistaram no grande matadouro que foi a 1ª Guerra Mundial. Pelotões inteiros formados por estudantes foram massacrados durante à guerra, mas isto não os impediu de posteriormente aderirem às Freikorps, futuras Seções de Assalto (as S.A.).

Porém, sabe-se que em geral as tendências científicas e ideológicas da universidade são incorporadas pelo estudantado, pois estes formam sua consciência a partir das referências que a universidade lhes fornece, representações de mundo partilhadas, mas históricas.

Assim, para as esquerdas, compostas majoritariamente por intelectuais e trabalhadores combatidos pelo Estado, se esperava qualquer coisa dos estudantes enquanto grupo social, menos uma mobilização anti-capitalista de matiz libertária.

 

A Crise das Sociedades Avançadas, Abastadas e Ordenadas

Para ensaiar uma resposta à questão da militância estudantil em 68, pensemos nos dois contextos que intérpretes do episódio localizam de um lado nos EUA e Europa e de outro no Brasil.

Ninguém no período achava que aconteceria o que aconteceu. A Europa se desenvolvia no Estado de Bem Estar Social, onde o Estado garantia amplos direitos, em muito impulsionadas pelo medo da vitória do comunismo nestes mesmos países em que os militantes socialistas lutaram bravamente contra o nazismo.

No entanto, os trabalhadores estavam aburguesados, as pessoas consumiam bem, o que poderia haver de errado, então?

Havia guerra fria. Dum lado intervenção americana de outro a soviética. Mas nada disso parecia entusiasmar os estudantes, todos dando sinal de um mundo bem administrado. Um sociólogo famoso, pouco antes das grandes manifestações, realizou estudo sobre como funcionava a reprodução das classes sociais e suas marcas de distinção na universidade e nada em seu estudo parecia adiantar algo que fugisse da afirmação da determinação econômica e social. No entanto, repentinamente, as universidades explodiram e os trabalhadores a seguiram.

Havia pressões até então ignoradas. Não estava em questão, para os estudantes destes países identificados a uma ampla esquerda sem partidos (negando o combate à alienação por meio de formas alienadas), a escassez ou a necessidade material, mas a qualidade da vida cotidiana e a necessidade da libertação da experiência na tentativa de controlar o seu próprio destino, o que se notava pelos grafites, hoje famosos.

O filósofo Herbert Marcuse cunhou uma expressão para isso: “mais-repressão”, isto é, algo como uma relação entre a mais-valia, o trabalho que o trabalhador não recebe e que fica com quem o contrata, e a repressão que recebemos além da necessária para a realização das atividades orientadas pela civilização, servindo para nosso controle e administrando a insatisfação por meio da alienação. Isto foi dito num dos livros mais divulgados e menos lidos da história, Eros e Civilização, onde juntava num mesmo raciocínio crítica da economia-política e psique.

Este desajuste não era só do capitalismo, mas de toda a civilização, e só poderia ser mudado com uma transformação radical da sociedade que não seria se se esgotasse na planificação da produção, mas que fosse uma melhora da vida humana.

Outros autores que serviram de baliza para o período foram Guy Debord e Raoul Vaneigem. Estes deram forma radicalmente anti-capitalista ao anseios libertadores do período, resultando na crítica ao que chamam de sociedade do espetáculo, crítica da separação da consciência da própria sociedade entre sua produção e circulação.

O que parecia mera crítica aos meios de comunicação de massa, mostrou-se uma teoria da revolução.

Pautas aparentemente pequenas, ganhavam repercussão e mobilização, muito além do que aparecia como demanda imediata, incendiando uma grande mobilização em torno da reapropriação da política, e a partir de onde novas vozes apareciam com força, assim também veio à tona o feminismo, o movimento negro americano e até mesmo as questões ligadas à saúde.

Toda aquela sociedade, anterior e também posterior ao Maio de 68, que sustentava uma aparência de plenitude, gerou a alienação política e da vida cotidiana e escondia suas vítimas do terceiro mundo governado por regimes autoritários, como aqueles que assolavam a América Latina.

 

A esquerda estudantil brasileira e o projeto nacional

No Brasil o contexto era diferente. Os intelectuais progressistas, conforme os postulados da teoria da dependência, acreditavam que só o socialismo desenvolveria o país, isto é, que só a democracia realizaria economicamente aquilo que o capitalismo produziu nas sociedades desenvolvidas.

Neste caminho, os estudantes, distanciados de sua origem social, se organizavam em torno de projetos progressistas sob a influência da AP ou do PCB, este realizava programas culturais significativos e acreditava poder exercer uma influência política em torno de um projeto de desenvolvimento nacional democrático e popular (postergando o socialismo para uma etapa posterior) que nunca se cumpriu.

Aqui, longe da idéia de revolução, acreditava-se que uma transição democrática em etapas com o apoio de uma burguesia progressista e anti-imperialista (que se mostrou inexistente) era necessária. Para tanto, os estudantes se engajavam em campanhas cívicas como a do Petróleo e as reformas universitárias que tentaram garantir à duras penas a representação paritária (conquistada em Córdoba, na Argentina, em 1911). No entanto, o AI-5 repentinamente interrompeu esta transição, que não prosseguiu nem com a abertura.

Muitos estudantes se engajaram contra a ditadura buscando o retorno da democracia num difícil contexto, sofrendo também a Universidade, pois muitos destes estudantes que viriam a sofrer horrores inimagináveis eram os melhores alunos de suas áreas.

Ao mesmo tempo, prosseguiu-se uma tentativa de modernização dos costumes e relações familiares, onde muitos acharam um paralelo com o que acontecia na Europa, mas sem vivermos num capitalismo desenvolvido.

Como resposta o regime militar passou progressivamente a criar espetáculos a partir de manifestações populares, como o Futebol, o carnaval e as novelas como forma de manter a população distraída das questões políticas e provar que o desenvolvimento econômico era possível sob um regime autoritário, isto é, sem democratizar-se a sociedade. Este foi mais um duro golpe para as forças progressistas que desejavam que a modernização do Estado implicasse em democracia.

Com isso fez-se com que as gerações que nos precedem vivessem um período de desenvolvimento e consumo sem participação política, e é por isso que, após a abertura, os estudantes herdaram tantas questões irresolutas e a alienação da maioria em relação às questões políticas da Universidade.

 

A amarga herança de 68

Pensando nas questões suscitadas pelo Maio de 68 europeu e americano, é difícil imaginar algo mais heterogêneo. Se por um lado as mobilizações contestatórias não foram vitoriosas, suas pautas foram assumidas pela esquerda e pela direita. A esquerda partidária assume as pautas das minorias, mesmo que discorde do contexto de onde surgiram suas manifestações, seja por terem sido espontâneas e, por isso, indisciplinadas e não controladas, seja porque interpretem o período como uma possibilidade revolucionária com “crise de direção” (isto é, onde não mandavam) e que por isso não atingiu o sucesso de uma transformação conforme suas deliberações congressuais.

Outros críticos assumem que o capitalismo assumiu todas as reivindicações do período, talvez, com exceção da legalização das drogas. A publicidade naturaliza a sexualidade e se utiliza do distanciamento irônico e conciso, parecendo que não estamos mais numa sociedade que reprime, mas uma que obriga a gozar.

Não escrevo para comemorar ou me entristecer por 68. Quero lembrar que nossas questões envolvem sempre a reflexão crítica renovada. Daquele período em que pediam para que a imaginação subisse ao poder, de tão distante de nosso contexto, podemos somente imaginá-lo. Mas uma lição poderia ainda ter certa relevância no Brasil, a de que os estudantes não devem lutar para libertar as forças produtivas, o que apenas reforça a própria técnica e a gestão ao substituírem a política pelo controle, mas que devem lutar pela emancipação política do Homem, reaprendendo o que é transformar a vida em algo digno nos dias de hoje.

Exigir que a produção científica do ensino superior seja democratizada, não é pesquisar os meios de obter uma eficácia maior ou uma organização melhor da produtividade. O impulso das forças produtivas, que esta exigência de democratização acredita provocar, é uma contradição com a noção, cada vez menos aceita, de aumento da produtividade, esta moral da produção destinada a estabelecer o sistema. Por conseqüência, este impulso sustentado das forças produtivas não reside na crença das capacidades de produção rápida de sentido, mas na emancipação da força produtiva viva Homem em vista de lhe permitir determinar e se apropriar do processo de produção global de sua existência.[1]

 

Douglas Anfra, estudante de filosofia - USP

 

[1] Extrato de uma resolução sobre o ensino superior, adotada pela 22ª Conferência dos delegados do SDS [Sozialistischer Deutscher Studentenbund], citado em “La revolte des étudiants allemands”, p. 205. 

Publié dans Movimento Estudantil

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